
A Força da Tradição no Terno de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito A história dos Catopês em Bocaiúva, Minas Gerais, é um testemunho vivo da resiliência cultural e da fé de um povo. Remontando a meados do século XIX, por volta de 1850, a manifestação congadeira emergiu como um espaço vital de expressão religiosa e cultural para os negros escravizados e libertos. Nesse contexto, o Congado não era apenas uma celebração, mas um poderoso instrumento de resistência e preservação das raízes africanas em solo brasileiro. Em Bocaiúva, essa tradição foi cuidadosamente mantida e transmitida através de linhagens familiares, como a do saudoso Mestre João do Lino Mar, que, por meio da oralidade e da prática cotidiana, garantiu a continuidade dos ritos e a vitalidade da manifestação. O Terno de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito destaca-se como um dos pilares dessa história, representando a profunda devoção aos “santos de preto” e a inabalável fé da comunidade.
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Séquito Real: A Realeza Negra na Procissão
Um dos momentos mais emblemáticos das festividades dos Catopês é a procissão de encerramento da Festa de Nossa Senhora do Rosário, que conta com a presença do Séquito Real. Esta representação da corte africana, com seus Reis e Rainhas do Congo, caminha com dignidade, muitas vezes sob um pálio, acompanhada e protegida pelos ternos de Catopês. O Séquito Real simboliza a realeza negra e a ancestralidade, estabelecendo uma profunda conexão entre a fé católica e a identidade cultural africana. É um elo visível com o passado, que reafirma a importância da herança africana na formação da cultura brasileira e na espiritualidade do povo de Bocaiúva.
Still, Minas Gerais, 2025
O Terno de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito: Uma Herança Viva
Em Bocaiúva, Minas Gerais, a rica tapeçaria cultural do Congado encontra uma de suas mais vibrantes expressões no Terno de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Este terno, sob a inspiradora liderança da Mestre Lucélia Pereira, não apenas mantém viva uma tradição centenária, mas também personifica a resistência e a fé de uma comunidade. Lucélia Pereira, filha do saudoso Mestre João do Lino Mar (conhecido como João Besouro), assumiu a frente do terno dando continuidade a um legado familiar e consolidando a presença feminina na liderança dessa manifestação cultural tão significativa. Sua atuação é um testemunho da força e da dedicação em preservar a identidade e os ritos dos Catopês.



Os Catopês, como parte do Congado, são grupos que harmonizam o catolicismo popular com elementos rituais de origem africana. Sua função primordial é animar o ambiente festivo, entoando cânticos e loas que celebram os santos e a ancestralidade, transformando as ruas de Bocaiúva em palcos de fé e devoção.



Indumentária: Cores que Contam Histórias
A indumentária dos Catopês é um elemento visual de grande significado, onde cada cor e detalhe carregam simbolismo profundo:
Roupas Rosas: A cor rosa, por sua vez, está intrinsecamente ligada a Nossa Senhora do Rosário, cujo nome remete a um “campo de rosas”. Esta cor vibrante representa a alegria da festa, a celebração da vida e a intercessão da Virgem Maria. O uso de tecidos como o cetim e a inclusão de fitas coloridas enriquecem visualmente os trajes, reforçando o caráter festivo e a dignidade dos participantes.
Roupas Brancas das Mulheres: A escolha do branco para as vestes femininas simboliza a pureza, a paz e a profunda devoção a Nossa Senhora do Rosário. É a cor da “limpeza” espiritual, do respeito ao sagrado e da conexão com o divino, refletindo a sacralidade do momento festivo.



As Bandeiras e o Cortejo: Símbolos de Fé e Caminho
As bandeiras de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito são os símbolos mais sagrados e visíveis do terno, representando a essência da devoção e da identidade dos Catopês. A bandeira de Nossa Senhora do Rosário evoca a proteção maternal e a intercessão da Virgem, enquanto a de São Benedito, o santo negro, simboliza a identidade, a resistência e a fé do povo afrodescendente.



O cortejo das bandeiras é um momento de profunda emoção e sacralidade. As bandeiras são levadas à frente do terno, abrindo caminho para a procissão, em um gesto que simboliza a liderança espiritual e a proteção divina. Elas são “dançadas” e reverenciadas pelos participantes e pela comunidade, que as saúdam com respeito e alegria. Carregar uma bandeira é uma honra e, muitas vezes, o cumprimento de uma promessa, demonstrando a dedicação e a fé dos membros do terno.



Símbolos e Significados dos Elementos Constituintes da Manifestação Congadeira
A manifestação congadeira é rica em simbolismo, onde cada elemento possui um significado profundo que transcende sua função material:
- Gungá (Chocalho de Pé): Este instrumento percussivo, amarrado aos pés dos dançantes, representa o som da terra e o passo marcado que conecta os Catopês aos seus ancestrais. Seu som metálico não apenas guia o ritmo da dança, mas também é crido para afastar energias negativas, purificando o espaço ritual.
- Caixas (Tambores): Consideradas o “coração” do terno, as caixas são a voz que chama os santos e estabelece a comunicação com o sagrado. Cada toque e ritmo possuem um significado ritualístico específico, transmitindo mensagens e emoções que são compreendidas pelos participantes e pela comunidade.
- Bastão (Cajado do Mestre): Símbolo de autoridade, comando e proteção, o bastão é empunhado pelo mestre para guiar o terno, marcar o tempo e abençoar o caminho. Ele representa o eixo que liga o céu à terra, a conexão entre o mundo material e o espiritual, e a sabedoria transmitida através das gerações.
- Coroa: A coroa é o símbolo máximo da realeza negra e da soberania de Nossa Senhora do Rosário. Ela representa a dignidade recuperada, a autoridade espiritual e a importância dos reis e rainhas do Congo na tradição congadeira.
- Rosário: Além de ser um instrumento de oração, o rosário é um poderoso símbolo de fé e proteção. Cada conta representa uma oração e uma “rosa” oferecida à Virgem Maria, reforçando a devoção e a intercessão divina.
- Loas e Cantos: A tradição oral é central na manifestação congadeira. As loas e os cantos são veículos para contar a história do povo, louvar os santos, transmitir ensinamentos morais e espirituais, e manter viva a memória coletiva.
- Dançar o Santo: O ato de dançar no Congado não é meramente entretenimento, mas uma forma de oração corporal. O conceito de “corpo-encruzilhada”, explorado por Jarbas Siqueira Ramos, descreve o corpo do congadeiro como o ponto de encontro entre o humano e o divino, onde a fé se manifesta em movimento e devoção.
- Mastro: A elevação do mastro marca o início da festa e simboliza o “centro do mundo ritual”, estabelecendo a conexão entre as dimensões material e espiritual e congregando a comunidade em torno da celebração.









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